Minha mãe está morrendo.
Eu não sabia que conseguia chorar ao ponto de gritar sem estar muito "consciente" disso. Digo consciente como quando nos sentimos na vontade de chorar, entende, você sente o choro vindo, você inclusive quer que venha. Esse foi um tipo diferente de choro. Eu não o queria. Ele desabou sobre mim, como uma onda. Quando você é criança, e você ama o mar, e você mergulha embaixo de uma onda apenas para a próxima vir, para que você ou mergulhe de novo, ou seja acertado pela onda. Eventualmente, a onda te acerta.
Penso que não imaginei que eu iria chorar tão pesado porque eu já chorei antes. Quando ela foi para um lar, eu também chorei, mas não me senti como a onda que havia acabado de me acertar. Foi mais a sensação de um travesseiro, como o que deitei minha cabeça no hotel na beira da estrada depois do meu longo dia. Um longo dia de vigilância.
Minha mãe está morrendo há um tempo.
Era Dia das Mães. Eu comprei flores para ela, as flores vinham numa caixa bonitinha. Eu fiz o pedido online, e a loja de flores subestimou sua capacidade de fazer as entregas. As flores chegaram tarde no dia, quando ela já tinha ido dormir. Eu entreguei as flores a ela no dia seguinte e expliquei o que tinha acontecido. Também tinha um cartão junto das flores. Ela segurou a caixa nas mãos e me perguntou, "O que eu faço com isso?" Eu penso nessa pergunta faz anos. O que é que você faz com flores?
Os dias mais longos naquela época não eram para vigiar. Eram para fazer, sempre fazer, fazer sem absorver o que estava sendo feito. Médicos, remédios, laboratórios, ir ao trabalho, passar no mercado. E os dias não pareciam tão longos. Parecia que eu estava no piloto automático. Assisti muitas séries que não tenho certeza se eu gostava. Ouvi muitos episódios de podcasts de true crime. Não tem nada de errado com eles, mas eu não me vejo gostando mais tanto de ouvi-los. Isso tudo não é importante. O que é importante, ao refletir, é que o fazer se tornou perceber
se tornou culpar
se tornou evitar
se tornou enlutar
se tornou entender
se tornou vigiar.
E então, eu vi minha mãe morrer.
Não aconteceu enquanto eu estava lá. Aconteceu apesar de eu estar lá. Não havia nada que eu pudesse fazer, perceber, culpar, evitar, enlutar, ou entender. Eu podia vigiar. E isso não é justo de dizer. Nada sobre isso foi justo. Mas eu passei os dedos pelo cabelo dela, sabendo que ninguém jamais passaria os dedos pelo meu cabelo como ela fazia; eu olhei em seus olhos, sabendo que ela não estava realmente me vendo; e eu disse que eu estava bem. Eu disse que eu queria que ela ficasse bem. Me senti como se eu nunca tivesse querido qualquer outra coisa. Eu acho que jamais irei querer qualquer outra coisa.
Espero que você não precise ver sua mãe morrer.
Mas se você vir, saiba que você vai ficar bem.
Porque tudo se torna outra coisa.
Porque mães de fato não morrem.
Você sempre se lembrará dela quando passar os dedos pelo seu cabelo.